rssicon
imageleft

Consultoria especializada no mercado financeiro

o braço financeiro da BCA.

O Estado de S. Paulo

Amir Khair

Preocupado com o controle inflacionário no início do ano, o governo segurou o ritmo de crescimento da economia

Preocupado com o controle inflacionário no início do ano, o governo segurou o ritmo de crescimento da economia, comprometendo-se com redução nas despesas de R$ 50 bilhões e elevando o superávit primário em R$ 10 bilhões em razão da previsão de o crescimento da arrecadação superar o valor orçado.

Na política monetária o freio ocorreu pelas medidas macroprudenciais que encareceram o crédito desde o início do ano. O Banco Central (BC) elevou a Selic durante as cinco primeiras reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). Isso não interferiu no crescimento nem na inflação, pois as taxas de juros bancárias estão descoladas da Selic, mas deu duro golpe nas finanças públicas por meio das despesas com juros que atingiram nos últimos 12 meses o recorde histórico de R$ 232 bilhões, ou seja, 16 vezes o Bolsa-Família.

O governo só foi acordar para o problema do crescimento há cerca de dois meses, quando percebeu que a crise internacional era mais séria do que avaliava. Fato é que previa crescer, no início do ano, 5%, e agora reduziu para 3,5%. Se não pisar imediatamente no acelerador da economia, é possível que o crescimento não ultrapasse 3%, com ameaça de contaminar o próximo ano.

Felizmente, a retomada do crescimento poderá ser facilitada a partir do reajuste do salário mínimo, que deve superar 14%, despejando recursos na base da pirâmide social.

Outro fator que deverá ajudar no crescimento são as despesas públicas da União, Estados e municípios em razão das eleições municipais. É quando os governos pisam no acelerador das realizações com inauguração de obras e reajustes salariais aos servidores, que estavam contidos em anos anteriores.

Mas o principal motor indutor do crescimento está no crédito abundante e barato. As medidas macroprudenciais tomadas no final do ano passado ainda se fazem sentir, reduzindo a oferta de crédito e encarecendo-o. Isso poderá ser mudado fazendo o que já deveria ter sido feito há muitos anos: reduzir as escorchantes taxas de juros cobradas pelos bancos. O governo tem esse poder, mas nunca conteve o abuso da agiotagem bancária.

As taxas de juros cobradas pelos bancos no Brasil são as mais altas do mundo, e transferem recursos da sociedade e da maior parte das empresas para o setor financeiro. Essas taxas constituem poderoso antídoto ao crescimento econômico. O crédito caro afasta boa parte da população que compra no crediário e sacrifica os custos das empresas que necessitam do crédito para expandir suas atividades.

Se o governo quer dar uma guinada rumo ao crescimento, deve regular as taxas de juros bancárias. Se não fizer isso, estará agindo na periferia do cerne do problema.

Passou da hora de pisar no acelerador da economia. Não é hora de priorizar a inflação nem faz sentido temê-la, pois os sinais da crise externa estão derrubando os preços das commodities no mercado interno.

A inflação deverá dar uma trégua pelo menos até o início do segundo semestre de 2012, e não parece que o cenário externo irá mudar para melhor até lá. Serão alguns anos que teremos pela frente de fraco desempenho da economia mundial.

A estratégia para o crescimento deve se apoiar principalmente no desenvolvimento do mercado interno, uma vez que o externo, fora as commodities e os alimentos, está desfavorável às empresas brasileiras principalmente por causa do câmbio sobrevalorizado causado pela Selic.

Por outro lado, vale repetir, como sempre faço em artigos, que, na eventualidade de retomada da inflação, não é a Selic que serve para controlá-la, pois o que segura a demanda são o crédito e a própria inflação, que corrói diariamente o poder de compra da maior parte da população.

O governo age corretamente reduzindo a Selic, e com isso está protegendo suas contas. Resta agir sobre as taxas de juros bancárias para proteger a sociedade e abrir caminho para o crescimento. O momento é agora, pois a crise está aí.

Amir Khair, mestre em Finanças Públicas pela FGV, consultor