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o braço financeiro da BCA.

O Globo

Deborah Berlinck

Para analistas, reestruturação de dívida não poderá ser copiada por Portugal e Itália, entre outros países em crise

 A Grécia deverá apresentar esta semana aos credores privados sua proposta final para redução da dívida. Vai ser a maior reestruturação de dívida da História do continente, com perdas de quase 70% para investidores. Líderes europeus insistem que a Grécia será um “caso único”: nenhum outro país deve esperar obter perdão de dívida. Mas, no mercado e entre economistas, todo mundo já pergunta quem vai ser a próxima bola da vez. Portugal?

O fato é que a dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) de Portugal, Espanha, Itália e outros endividados da zona do euro – com todo aperto de cinto – está aumentando. Não porque a dívida, em si, esteja crescendo, mas por outro motivo: a economia desses países está encolhendo.

A dívida de Portugal – eleito modelo da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), por seguir à risca todas as exigências sem que portugueses revoltados saiam às ruas queimando prédios, como na Grécia – vai subir de 107% do PIB para 118% em 2013. A da Espanha, em 2013, vai dobrar, segundo as projeções do próprio bloco: de 36% antes da crise para 84%. E na Itália vai passar de 105% em 2009 para 126% no próximo ano.

Entra aí o choque de doutrinas que está dividindo o continente: uns apostam que o aperto tem de ser intenso a curto prazo para colher os frutos no futuro, enquanto outros dizem que, por força de uma austeridade tão violenta, esses países correm o risco de afundar ainda mais. Três analistas ouvidos pelo GLOBO não descartam os riscos de nova reviravolta na zona do euro. Mas entre eles próprios fica clara a divisão.

O economista alemão Guntram Wolff, vice-diretor do Instituto Bruegel, em Bruxelas, acha que a austeridade em Portugal é “inevitável”. A saída para Portugal voltar a crescer, segundo ele, precisa vir de uma reestruturação da exportação.

- Portugal precisa exportar mais para evitar o colapso da economia – afirma.

Imaginar a reestruturação da dívida também de Portugal, segundo Wolff, seria enviar uma mensagem “terrível”. Os líderes europeus se comprometeram que a Grécia seria exceção:

- É preciso ter uma linha clara. Para Portugal, tem de ser: não haverá reestruturação – afirma o economista. – Os europeus deram uma mensagem clara: a Grécia é excepcional. Se agora disserem “bom, na realidade, Portugal também é excepcional”, o mercado vai dizer: “ok, ok&e; a Itália também vai ser excepcional”. Aí estaremos numa grande confusão.

Mas o economista italiano Francesco Saraceno, do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas (OFCE), lança duas perguntas. A primeira: Portugal vai exportar para quem, se os outros também encolhem? Segunda: que poder têm os líderes europeus, que erraram ao dizer que a Grécia não ia quebrar, para decidir agora que outros não terão de reestruturar suas dívidas?

- Estamos atualmente no caminho que garante que países (endividados) vão eliminar o risco de calote? Se não estivermos, a Grécia não será caso isolado – diz Saraceno, para quem a Europa se concentra na questão errada. – A dívida não é problema. Podemos viver com dívida alta, desde que sustentável. O problema está no baixo crescimento.

Ontem, o gabinete grego aprovou formalmente as medidas de austeridade fiscal, anunciadas na semana passada, para receber o pacote de ajuda de 130 bilhões. O gabinete concordou em lançar um swap de dívida para credores privados em 8 de março e concluí-la até 11 de março.