MANDE A VACA PARA O BREJO
4 julho 2007Era uma vez, numa terra distante, um sábio chinês e seu discÃpulo. Certo dia, em suas andanças, avistaram ao longe um casebre. Ao se aproximar, notaram que, a despeito da extrema pobreza do lugar, a casinha era habitada.
Naquela área desolada, sem plantações nem árvores, viviam um homem, uma mulher, seus três filhos pequenos e uma vaquinha magra e cansada. Com fome e sede, o sábio e o discÃpulo pediram abrigo por algumas horas. Foram bem recebidos. A certa altura, enquanto se alimentava, o sábio perguntou:
- Este é um lugar muito pobre, longe de tudo. Como vocês sobrevivem?
- O senhor vê aquela vaca? Dela tiramos todo o nosso sustento – disse o chefe da famÃlia.
- Ela nos dá o leite, que bebemos e também transformamos em queijo e coalhada. Quando sobra, vamos à cidade e trocamos o leite e o queijo por outros alimentos. É assim que vivemos.
O sábio agradeceu a hospitalidade e partiu. Nem bem fez a primeira curva da estrada, disse ao discÃpulo:
- Volte lá, pegue a vaquinha, leve-a ao precipÃcio ali em frente e atire-a lá pra baixo.
O discÃpulo não acreditou.
- Não posso fazer isso, mestre! Como pode ser tão ingrato? A vaquinha é tudo o que eles têm. Se eu jogá-la no precipÃcio, eles não terão como sobreviver. Sem a vaca, eles morrem!
O sábio, como convém aos sábios chineses, apenas respirou fundo e repetiu a ordem:
- Vá lá e empurre a vaca no precipÃcio.
Indignado porém resignado, o discÃpulo voltou ao casebre e, sorrateiramente, conduziu o animal até a beira do abismo e o empurrou.
A vaca, previsivelmente, estatelou-se lá embaixo.
Alguns anos se passaram e durante esse tempo o remorso nunca abandonou o discÃpulo. Num certo dia de primavera, moÃdo pela culpa, abandonou o sábio e decidiu voltar à quele lugar. Queria ver o que tinha acontecido com a famÃlia, ajudá-la pedir desculpas, reparar seu erro de alguma maneira.
Ao fazer a curva da estrada não acreditou no que seus olhos viram. No lugar do casebre desmazelado havia um sÃtio maravilhoso, com muitas árvores, piscina, carro importado na garagem, antena parabólica. Perto da churrasqueira, estavam três adolescentes robustos comemorando com os pais a conquista do primeiro milhão de dólares. O coração do discÃpulo gelou. O que teria acontecido com a famÃlia? Decerto, vencidos pela fome foram obrigados a vender o terreno e ir embora. Nesse momento, pensou o aprendiz, devem estar mendigando em alguma cidade. Aproximou-se, então do caseiro e perguntou se ele sabia o paradeiro da famÃlia que havia morado lá há alguns anos.
- Claro que sei. Você está olhando para ela! – disse o caseiro, apontando as pessoas ao redor da churrasqueira.
Incrédulo, o discÃpulo afastou o portão, deu alguns passos e, chegando perto da piscina, reconheceu o mesmo homem de antes, só que mais forte e altivo, a mulher mais feliz, as crianças, que haviam se tornado adolescentes saudáveis. Espantado, dirigiu-se ao homem e disse:
- Mas o que aconteceu? Eu estive aqui com meu mestre uns anos atrás e este era um lugar miserável, não havia nada. O que o senhor fez para melhorar tanto de vida em tão pouco tempo?
O homem olhou para o discÃpulo, sorriu e respondeu:
- Nós tÃnhamos uma vaquinha, de onde tirávamos nosso sustento. Era tudo o que possuÃamos, mas um dia ela caiu no precipÃcio e morreu. Para sobreviver, tivemos que fazer outras coisas, desenvolver habilidades que nem sabÃamos que tÃnhamos. E foi assim, buscando novas soluções, que hoje estamos muito melhor que antes…
Moral da história:
às vezes é preciso perder para ganhar mais adiante.
Ou,
é da adversidade que vêm as melhores idéias.
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